Wikileaks da inteligência
Hoje me surpreendi positivamente ao ler os segundos cadernos. Chico Buarque – que em outros tempos dava a cara à tapa dia sim, dia não nos jornais sempre nos brindando com sua franqueza e inteligência, mas também emitindo opiniões e gostos sobre quaisquer assuntos, despretensiosamente - saiu de sua reclusão para se defender (através de uma carta ao Globo) no épisódio da premiação em duas categorias no Prêmio Jabuti deste ano. Bacana! É bom ouvir o lado do acusado. Chico disse que muita gente não tolera o fato de um cantor e compositor ser agraciado com prêmios literários.
Carlos Lyra, com sua ironia deliciosa, ao anunciar um CD novo com parcerias com Aldir Blanc (“Era no tempo do rei”, baseada em uma peça teatral), disse também ao Globo que pode passar “50 anos fazendo show de puta”, cantando somente seus eternos sucessos que o público adora e sai feliz, ainda que tenha tanta coisa inédita guardada. Ou sobre a MPB atual, sobre a qual diz não ter lá maiores interesses, deixou passar uma crítica: ”Ana Cañas não dá. Prefiro Zeca Pagodinho”. Finalmente, Vera Fischer, franquíssima, na coluna de Monica Bergamo na Folha de SP, disse que agora virou escritora e “não quer escrever pra pobre”, que são muito mais bonitas as imagens da vida do rico, e que os pobres que lerem seus romances vão se identificar e adorá-los. Sobre seu estilo, disse que “ninguém tem mais saco pra ficar lendo a descrição de uma folhinha caindo em quatro páginas”, que “as coisas são mais rápidas em seus livros”. Também disse que não queria uma mulher petista na presidência, que “o PT já deu” e por aí vai.
Concorde-se ou não, é bom ver as pessoas dizendo o que pensam, algo que saiu de moda há 20 anos. No geral, os entrevistados dizem o que se espera que eles digam, para que saiam sempre anjinhos, assépticos, perfeitos, corretos. Só que ninguém é assim. Nem nós e nem os artistas. Para os mais novos é bom dizer que nem sempre foi assim. Mesmo com a ditadura correndo solta, os artistas diziam o que queriam nos anos 70 e 80. Se expunham muito mais em todos os sentidos. Não tinham medo ou vergonha de expressar seus gostos, sentimentos e críticas até a colegas de profissão.
Lendo esses depoimentos ácidos nos jornais de hoje sinto que é um bom momento de autocrítica, de ver como encaretamos, como lendo essas entrevistas a gente tem vontade de interferir imediatamente no discurso dos artistas e exigir deles uma postura fake, para que “eles saiam bem na fita”, até no intuito de proteger nossos ídolos. Queremos, no fundo, patrulhar também tudo e todos apenas pelas pessoas expressarem o que realmente pensam.
Proponho uma volta catártica aos 70 e 80 – e que artistas e intelectuais joguem tudo no ventilador. Uma espécie de Wikileaks da inteligência. Vamos perceber que a massa crítica não morreu e quem sabe daí a nossa arte e nossa música fiquem até mais vibrantes, ricas e incisivas, como um dia elas já foram.




