13/12/2010
Tags: Carlos Lyra, Chico Buarque, Vera Fischer
Hoje me surpreendi positivamente ao ler os segundos cadernos. Chico Buarque – que em outros tempos dava a cara à tapa dia sim, dia não nos jornais sempre nos brindando com sua franqueza e inteligência, mas também emitindo opiniões e gostos sobre quaisquer assuntos, despretensiosamente - saiu de sua reclusão para se defender (através de uma carta ao Globo) no épisódio da premiação em duas categorias no Prêmio Jabuti deste ano. Bacana! É bom ouvir o lado do acusado. Chico disse que muita gente não tolera o fato de um cantor e compositor ser agraciado com prêmios literários.
Carlos Lyra, com sua ironia deliciosa, ao anunciar um CD novo com parcerias com Aldir Blanc (“Era no tempo do rei”, baseada em uma peça teatral), disse também ao Globo que pode passar “50 anos fazendo show de puta”, cantando somente seus eternos sucessos que o público adora e sai feliz, ainda que tenha tanta coisa inédita guardada. Ou sobre a MPB atual, sobre a qual diz não ter lá maiores interesses, deixou passar uma crítica: ”Ana Cañas não dá. Prefiro Zeca Pagodinho”. Finalmente, Vera Fischer, franquíssima, na coluna de Monica Bergamo na Folha de SP, disse que agora virou escritora e “não quer escrever pra pobre”, que são muito mais bonitas as imagens da vida do rico, e que os pobres que lerem seus romances vão se identificar e adorá-los. Sobre seu estilo, disse que “ninguém tem mais saco pra ficar lendo a descrição de uma folhinha caindo em quatro páginas”, que “as coisas são mais rápidas em seus livros”. Também disse que não queria uma mulher petista na presidência, que “o PT já deu” e por aí vai.
Concorde-se ou não, é bom ver as pessoas dizendo o que pensam, algo que saiu de moda há 20 anos. No geral, os entrevistados dizem o que se espera que eles digam, para que saiam sempre anjinhos, assépticos, perfeitos, corretos. Só que ninguém é assim. Nem nós e nem os artistas. Para os mais novos é bom dizer que nem sempre foi assim. Mesmo com a ditadura correndo solta, os artistas diziam o que queriam nos anos 70 e 80. Se expunham muito mais em todos os sentidos. Não tinham medo ou vergonha de expressar seus gostos, sentimentos e críticas até a colegas de profissão.
Lendo esses depoimentos ácidos nos jornais de hoje sinto que é um bom momento de autocrítica, de ver como encaretamos, como lendo essas entrevistas a gente tem vontade de interferir imediatamente no discurso dos artistas e exigir deles uma postura fake, para que “eles saiam bem na fita”, até no intuito de proteger nossos ídolos. Queremos, no fundo, patrulhar também tudo e todos apenas pelas pessoas expressarem o que realmente pensam.
Proponho uma volta catártica aos 70 e 80 – e que artistas e intelectuais joguem tudo no ventilador. Uma espécie de Wikileaks da inteligência. Vamos perceber que a massa crítica não morreu e quem sabe daí a nossa arte e nossa música fiquem até mais vibrantes, ricas e incisivas, como um dia elas já foram.
01/12/2010
Tags: Cauby Peixoto, Hebe Camargo, Lana Bittencourt
Escrevi a crítica do novo CD da adorável Hebe Camargo, a convite da Folha de S. Paulo, nesta quarta, dia 1 de dezembro de 2010. Confiram… O título poderia ser mais generoso, mas não fui eu que dei, tá, gente?
18/10/2010
Tags: Edy Star, Zezé Motta

Edy Star, com Zezé Motta, recebendo o II Trofeu Sexo MPB, de Rodrigo Faour
É muito bom poder estar com pessoas talentosas, inteligentes e com opinião própria, e ainda por cima divertidas. Ontem recebi amigos de várias fases da minha vida e contei com as presenças adoráveis de Zezé Motta – que não pôde ir à festa de entrega do II Trofeu Sexo MPB no mês passado por motivo de força maior, e que, então, o recebeu ontem - e de Edy Star, irreverente performer, ator, cantor e diretor, que nos encantou com suas histórias e piadas maravilhosas, vivenciadas em seus inacreditáveis 72 anos. Viver vale a pena por momentos preciosos como este.

Faour, Zezé Motta (com o Trofeu Sexo MPB) e os amigos Ricardo Grifo e Fernando Assumpção

Edy Star (ao centro), entre Rodrigo Faour, André, Richard, Grifo e Fernando
14/10/2009
Tags: Leon Barg
Só tive um único encontro com o saudoso Leon Barg, que nos deixou no último dia 12 de outubro, aos 79 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante aqui no Rio, enquanto almoçava com meu querido amigo (e também colecionador, produtor e pesquisador) Carlos Savalla. Leon foi prestigiar o lançamento do meu livro sobre o Cauby Peixoto, na linda festa que rolou na Modern Sound (RJ), em 2001.

Leon Barg e Rodrigo Faour, 2001
Era um sujeito prestativo, sempre disposto a ajudar aos fãs da velha guarda, dos cantores do rádio, enfim, da turma que gravava em 78 rotações – seu grande xodó e motivo de uma coleção de mais de 100 mil títulos. Foi ele quem me arrumou a gravação raríssima de Cauby & Leny Eversong de “Blue guitar” (1952), um dos primeiros registros em disco do cantor. Depois chegamos a nos falar por fone algumas vezes. Sei que ele queria reeditar um álbum raro do Cauby em espanhol – e também algumas coisas de Dalva, mas não conseguiu. Ele sabe bem das burocracias de nossa indústria. As gravadoras vira e mexe perdem contratos e às vezes não se acha nem mesmo o dono de certos fonogramas…
Enfim, era um companheiro – ainda que à distância – deste pequeno nicho dos pesquisadores e garimpadores da MPB que conseguem reeditar pérolas. Na sua gravadora Revivendo, foram centenas de discos. De alguma maneira, venho tentando fazer o que ele fazia, só que não me restringindo apenas à turma dos velhos bolachões. Mas, sem dúvida, ele fica para a história como um símbolo de resistência numa terra que não valoriza a memória.
Leon se foi e rezo para que seus documentos fiquem em boas mãos, pois já está mais do que provado que os acervos particulares no Brasil muitas vezes são mais completos e bem cuidados que os oficiais. Que ele se encontre e seja homenageado onde quer que esteja por aqueles que ele tanto prestigiou. De Chico Alves a Emilinha Borba, de Linda Batista a Isaura Garcia. De Nelson Gonçalves a Tom Jobim.