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Opinião de Faour

Artigo de Faour para a Revista de Domingo do Jornal O Globo

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O adeus a Leon Barg

Só tive um único encontro com o saudoso Leon Barg, que nos deixou no último dia 12 de outubro, aos 79 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante aqui no Rio, enquanto almoçava com meu querido amigo (e também colecionador, produtor e pesquisador) Carlos Savalla. Leon foi prestigiar o lançamento do meu livro sobre o Cauby Peixoto, na linda festa que rolou na Modern Sound (RJ), em 2001.

Leon Barg e Rodrigo Faour, 2001
Leon Barg e Rodrigo Faour, 2001

Era um sujeito prestativo, sempre disposto a ajudar aos fãs da velha guarda, dos cantores do rádio, enfim, da turma que gravava em 78 rotações – seu grande xodó e motivo de uma coleção de mais de 100 mil títulos. Foi ele quem me arrumou a gravação raríssima de Cauby & Leny Eversong de “Blue guitar” (1952), um dos primeiros registros em disco do cantor. Depois chegamos a nos falar por fone algumas vezes. Sei que ele queria reeditar um álbum raro do Cauby em espanhol – e também algumas coisas de Dalva, mas não conseguiu. Ele sabe bem das burocracias de nossa indústria. As gravadoras vira e mexe perdem contratos e às vezes não se acha nem mesmo o dono de certos fonogramas…

Enfim, era um companheiro – ainda que à distância – deste pequeno nicho dos pesquisadores e garimpadores da MPB que conseguem reeditar pérolas. Na sua gravadora Revivendo, foram centenas de discos. De alguma maneira, venho tentando fazer o que ele fazia, só que não me restringindo apenas à turma dos velhos bolachões. Mas, sem dúvida, ele fica para a história como um símbolo de resistência numa terra que não valoriza a memória.

Leon se foi e rezo para que seus documentos fiquem em boas mãos, pois já está mais do que provado que os acervos particulares no Brasil muitas vezes são mais completos e bem cuidados que os oficiais. Que ele se encontre e seja homenageado onde quer que esteja por aqueles que ele tanto prestigiou. De Chico Alves a Emilinha Borba, de Linda Batista a Isaura Garcia. De Nelson Gonçalves a Tom Jobim.

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O que ainda não foi dito sobre os “50 anos da bossa nova”: ela terminou, como movimento, há 40 anos

(artigo de Rodrigo Faour publicado na Revista MPB Brasil, da rádio MPB FM, do RJ, em novembro de 2008)

A MPB por ser tão diversa e inesgotável está sempre presente no noticiário e neste ano de 2008 só deu ela. Até um peão de obra que só ouve música sertaneja deve saber que comemoramos 50 anos da bossa nova, porque este foi, sem dúvida, o assunto musical do ano em tudo quanto foi jornal, rádio, TV e até cinema, pois houve até filme – “Os desafinados” – sobre o filão. Muito justo que num país em que sempre há queixas sobre a sua terrível falta de memória que se tenha feito uma ode a um estilo tão renovador de nosso cancioneiro, e por tabela uma boa homenagem ao nosso Rio de Janeiro, cidade sempre maravilhosa e tão sabotada por nossos governantes… Agora que já foi tão homenageada, vamos botar alguns pingos nos “is”, antes que o novo acordo ortográfico entre os países de língua portuguesa também nos retire esse delicioso prazer de pingar os is. Senão vejamos…

Desde os anos 40, muitos artistas vinham fazendo uma música com toques de modernidade até chegar agosto de 1958 e a aclamada gravação de João Gilberto de “Chega de saudade”. Daí em diante, a bossa nova como “movimento” durou aproximadamente uns 10 anos. Houve intérpretes que exploraram o “banquinho e o violão” à exaustão, outros que exploraram mais a sonoridade jazzística – vide a enxurrada de trios instrumentais que se reproduziam como coelhos nos anos 60, Tamba, Jongo e Zimbo Trio à frente –; outros que quiseram dar uma resposta mais “social” às letras idealizadas de amor, mulher, sorriso e flor da primeira fase da bossa (Carlos Lyra, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo), e ainda outros que foram para os EUA (Sérgio Mendes, Luiz Bonfá, Astrud Gilberto, Walter Wanderley etc) e acabaram por fundir sua bossa a outros estilos e aí está o ponto onde quero chegar: a bossa nova como movimento terminou aos 10 anos de carreira. Tudo que houve em seguida foram desdobramentos e não um “movimento”.

A bossa nova se incorporou definitivamente ao nosso cancioneiro como mais uma maneira de tocar o velho e bom samba. E todos os nossos grandes artistas, cedo ou tarde, tiraram uma casquinha da bossa nova, como tiraram também do samba tradicional, do baião, do frevo, da modinha e da valsa, do rock, do soul e dos ritmos afro-caribenhos. Pode-se dizer ainda que há também uma “intenção bossa nova”, ou seja, algo de sofisticado e intimista no fazer música que influenciou artistas não só da MPB como do mundo inteiro. E Menescal ainda me disse numa entrevista que até mesmo os jazzistas se influenciaram pela bateria da bossa nova, que ficou mais manemolente depois do advento da bossa nova, e ele tem razão.

Exageros, mitificações e os supostos excluídos das comemorações
Ocorre que após o LP “Bênção, bossa nova”, de Leila Pinheiro, que Menescal produziu há 20 anos, comemorando os 30 anos da bossa nova, e do livro best-seller “Chega de saudade”, do meu querido Ruy Castro, a mesma bossa teve um ressurgimento na mídia e as pessoas voltaram a cultuar os clássicos do “movimento” e, pouco a pouco, artistas outrora vinculados ao mesmo mas que naquele momento estavam bem distantes da bossa tradicional voltaram a querer o seu quinhão. Seja gravando novos discos (ou velhos sucessos) dedicados ao gênero, seja falando do assunto (outrora “cafona”) na imprensa… E, finalmente, neste ano de 2008 o caldo entornou na escalação dos shows comemorativos que pipocaram pelo Brasil e pelo mundo em torno da BN. Um monte de gente se sentiu traído, esquecido ou menosprezado pelos organizadores dos mesmos.

Ora, isso uma besteira sem par. Porque todos os artistas, inclusive os escalados para os shows comemorativos, fizeram de tudo em suas carreiras – até bossa nova. Menescal largou a carreira de band-leader em 1970, quando foi ser diretor artístico da PolyGram. Lá fazia arranjos para vários artistas do cast, mas minimizou bastante sua obra até mesmo como compositor. Só voltaria a gravar mais regularmente vinte anos depois, quando abriu sua gravadora especializada em BN, a Albatroz. Carlos Lyra depois de voltar do exílio nos anos 70 fez de tudo um pouco, escreveu até canções de duplo sentido pra sua ex-mulher Kate Lyra, no melhor estilo dos forrozeiros e dos autores carnavalescos, mas o público queria sempre dele as velhas canções da peça “Pobre Menina Rica”, que escreveu com Vinicius de Moraes em 1964.

Grandes intérpretes como Pery Ribeiro e Leny Andrade, depois de álbuns radicais ligados à bossa nova, gravaram também de tudo. Leny chegou a fazer um disco de sambões nos anos 70 e um de pagodes de Altay Velloso mais recentemente, e Pery gravou até “Ave Maria no morro”, de seu pai Herivelto Martins, em dueto com Christian & Ralf, além de discos de sonoridade mais pop/romântica ou de MPB moderna. João Donato viveu uma pá de tempo fora do Brasil, fez discos de jazz/instrumental, ficou anos e anos no ostracismo e só mais recentemente voltou a gravar que nem um louco um disco atrás do outro e visto como “mito da bossa nova”. E todo mundo que gravava com ele já podia dizer também que gravou ou participou de um disco de BN.

O genial Marcos Valle então – que dos compositores bossanovistas vivos talvez tenha sido o que mais se renovou – fez de tudo mesmo: canção brega-romântica, “dance”, pop/rock, além de baiões estilizados e tudo o mais que você puder imaginar. Tudo com grande competência, mas bem longe de ser um bossa-novista radical. Foi inclusive por intermédio de convites de produtores e gravadoras estrangeiras que Marcos Valle e também Joyce voltaram a ser valorizados internacionalmente, gravando mais regularmente e com público cativo na Inglaterra – e no Japão, onde a bossa nova é muito mais vendida e cultuada que no Brasil. Falando em Joyce, esta começou uma carreira influenciada pela BN nos idos de 1967/68, mas seus primeiros discos são… MPB pura. Somente a partir de final dos anos 80 passou a dedicar alguns discos exclusivamente ao gênero, também suprindo justamente uma demanda do mercado internacional.

O falecido Tom Jobim depois da primeira fase bossa-novista, escreveu valsas, choros, canções ecológicas… tudo bem, o clima era sempre “bossa nova”, mas não era mais parte de um “movimento”. Vinicius de Moraes a partir de sua vitoriosa parceria com Toquinho na década de 70 fez sambas da melhor qualidade e canções de outros gêneros nem sempre vinculadas ao estilo “bossa nova”. Tinham inclusive percussão de samba tradicional.

Talvez o único artista mais radicalmente ligado à bossa nova desde sempre tenha sido mesmo João Gilberto, que – vamos e venhamos – quase nunca renova seu repertório, quase nunca faz shows e muita gente não gosta, mas tem vergonha de assumir, porque é politicamente incorreto. Eu confesso que curto, vira e mexe o toco no meu programa “Sexo MPB”, mas não partilho da opinião de que está cada vez melhor, que cada vez que canta “Chega de saudade” traz uma nova nuance à música. Isso já é viagem da “inteligentsia”. Queria ver se ele fizesse um show e um disco por ano tocando sempre as mesmas músicas se a crítica seria tão condescendente. “Porra, não sai disso!” – diriam. Mas, de dez em dez anos (ou mais), aí só se vê sua genialidade reforçada. Aliás, João é o “louco” mais inteligente do Brasil. Como se sabe, é louco, mas não rasga dinheiro. Muito pelo contrário. Com o cachê pago pelo Itaú e pelos japoneses por meia dúzia de shows dele, dava pra pagar uns 100 shows de bossa nova até 2050. É o tal caso, ele é gênio? Sim. Mas a MPB tem outros gênios do samba, do choro, da Era do Rádio, da canção de protesto, da canção romântica que nunca tiveram a metade do espaço que João tem. E tudo em nome de sua excentricidade. Este é, sem dúvida, o capítulo mais pungente dos exageros cometidos em prol do meio século da bossa.

Por conta desse oba-ôba dos 50 anos da BN, artistas como Maria Creuza, Miúcha, Claudette Soares, Alaíde Costa, Os Cariocas, o referido Pery Ribeiro e tantos outros reivindicaram seu quinhão nesta festa. De fato, não podem ser esquecidos. Mas, repito, o mais importante é pensar que eles podem ter sido alguns dos que mais gravaram o gênero e alguns até ajudaram mesmo a fundá-lo ou fixá-lo, mas hoje a bossa é deliciosamente promíscua. Ou Caetano, Chico, Gil, João Bosco, Ivan Lins, Roberto, Erasmo, MPB/4, Quarteto em Cy, Jorge Benjor, Gal Costa e até Rita Lee também não fazem bossa nova? E Jorge Vercillo, Maria Rita, Mart’nália, Marisa Monte?

Rita Lee já fez pelo menos dois discos com clima totalmente bossa nova – “Bossa’n’roll” e “Aqui, ali, em qualquer lugar” (tributo ao Beatles). E Caetano, Chico, Gil, Ivan Lins, João Bosco, Erasmo, Roberto, Benjor, entre tantos outros, já compuseram inúmeros sambas influenciados pela bossa – e até mesmo na interpretação de muitas de suas canções. Gal Costa imortalizou muitas bossas – e não necessariamente os clássicos do movimento, mas canções com clima de bossa. Marina nos anos 80 e 90 emplacou um hit atrás do outro com uma voz pequena, “bossa nova”. Marisa Monte insiste numa estética cool há anos totalmente BN. E Sade Adú? Também não deveria estar no famoso show da praia de Ipanema? Vamos celebrar os 50 anos da bossa nova, mas nada de “movimento”. O movimento – bem como seus principais clássicos – foram compostos até 1968. O resto é desdobramento, influência e está impregnado na sigla que atende desde 1965 pelo nome de MPB.

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Waldick Soriano: dor de corno e vozeirão rascante embalaram multidões de românticos

(artigo de Rodrigo Faour publicado na Folha de S. Paulo, dia 5 de setembro de 2008)

A maior parte da população brasileira é formada de gente muito simples – e um dos poucos prazeres que lhes resta na vida é ligar o radinho para ouvir um locutor participativo ou uma música de dor-de-corno básica, como que num alento às suas experiências sofridas de vida. E quem essa massa curte ouvir? Não é a voz de Dorival Caymmi nem de João Gilberto.
Foi num certo tempo Vicente Celestino, depois Orlando Dias, Anísio Silva, mais tarde Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Antônio Marcos, Odair José, José Augusto, depois Leandro & Leonardo e Chitãozinho & Xororó, e hoje vai por Daniel, Bruno & Marrone, sem nunca esquecer Waldick Soriano, espécie de ícone do gênero brega, que perdemos ontem.
Brega, sim senhor. E com griffe. Waldick tinha aquele seu chapéu charmoso, aqueles óculos grandes, a voz rascante do corno transtornado que, não sem razão, comovia multidões desde que começou a gravar, em 1960. Afora a obra-prima “Tortura de amor” (1962), um bolero um tanto sofisticado que já foi relido até por gente da MPB tradicional, todas as suas canções são rigorosamente iguais umas às outras. E se não forem assim pela melodia, o são pelos arranjos na linha do “chacundum”. O que vale é o clima de cabaré, são os metais e sua voz marcante pontuando tudo, como que ninando aquela multidão de românticos incuráveis que sonham com uma noite de amor bem temperada ou apenas alguns minutinhos de chamego, dançando à meia-luz num botequinho de beira de estrada com quem estiver disponível.
Waldick é o lado B do Brasil – que, em verdade, é o lado A, por sua imensa popularidade, ainda que dificilmente suas músicas cheguem às futuras gerações, pois haverá outros e bons Waldicks para cumprir este papel com o vocabulário e o ritmo da moda que peguem essa turma de jeito pelo seu ponto fraco – o coração.


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Quem tem medo do Créu?

(artigo publicado na Revista Ilusorama, em julho/2008)

Eu não tenho medo, já vou avisando. E nem adianta me olharem com essa cara, dando risinhos. Sabem por que? Porque isso não vai abalar os pilares da família brasileira, nem da cultura nacional, nem da MPB propriamente dita. Bizarrices como essa Dança do Créu não são novidades em nossa música. O que vem a ser? Simples! Um sujeito magrelo cantando com voz cavernosa e anunciando “uma nova dança” em cinco velocidades, cujo o refrão é sempre o mesmo: “créééu… créééu… créééu… créééu…”. A cada velocidade, o sujeito e suas dançarinas popozudas têm que tremer mais e mais o corpo. Pode ser pior? Pode ser melhor? Gente, isso é Brasil! Você pode imaginar a Dança do Créu na Dinamarca? Na China? No Chile? Pelo bem ou pelo mal, nosso país tem excesso de testosterona e adrenalina, e as mesmas vão singrando por todos os nossos orifícios em nosso ventilador hormonal – desde os primórdios da MPB.
Outro dia lendo matérias de coleguinhas da imprensa, todo mundo começou a descascar a Dança do Créu, dizendo que no país que se orgulha das músicas de Chico, Caetano e da bossa nova, isso é o fim dos tempos. Que comparação sem propósito! Até parece que a música brasileira só teve autores de elite… Ou eu estou ficando louco ou as pessoas são mal informadas ou têm a memória muito fraca. Desculpem o que vou dizer, mas não foi o neo funk carioca e seus derivativos, como esse MC Créu, que inventaram a sacanagem “mal cantada” por aqui.
O lundu no século XVIII já era um estilo alegre com versos sacaninhas. Na virada do século XIX para o XX, o maxixe era execrado pelas elites justamente por seu teor sexual. Acostumada às modinhas e óperas européias, a classe média nascente da época achava o pobre do maxixe “uó”. Inicialmente uma dança, o maxixe eram polcas, tangos e habaneras tocados em ritmo frenético pelas orquestras. Aí os dançarinos se enganchavam de uma tal maneira que pareciam estar mesmo num tremendo coito sexual – e muito mais erótico que o futuro samba, que também foi perseguido.
Nos anos 30, a marchinha carnavalesca se fixou como a grande música dos foliões. E se para cantar esses maxixes realmente não era preciso ser um Caruso, marchinha então… muita gente que nem era do ramo da música popular a cantou, inclusive palhaços, humoristas e vedetes. Virígina Lane mesmo emplacou uma maravilhosa, a Marcha da pipoca: “Empurra, empurra, empurra a carrocinha/ Empurra, minha gente, que a ‘pipoca’ ta quentinha”. Tá, meu bem!
Musiquinhas pegajosas, fáceis, de duplo sentido, com poucos versos e evocando “uma nova dança” e cantadas por cantores de todas as tribos (inclusive os fracos) são mais velhos que Dercy Gonçalves! A partir dos anos 40, vieram o Chamego, de Luiz Gonzaga, o Sassaruê, de Marlene, o Vira do Secos & Molhados, a Dança do Bole-bole de João Roberto Kelly e suas mulatas, a Conga, conga, conga, de Gretchen, o Fricote de Luiz Caldas, a rodinha de Sarajane, o tititi, a dança da galinha, do crocodilo, do tchaco, da tcheca e até a do Mike Tyson, no carnaval baiano. Falando em galinha, teve a famosa Marylou, do Ultraje a Rigor, o Rock das Aranha, do Raul Seixas e a lambada, cujo clímax da dança era o movimento que a mulher fazia com as pernas para cima, que dava para ver a cor de sua calcinha.
Vieram ainda o Rala o pinto, do Zé Paulo, a Melô do Tchan (“Segura o Tchan!”), do Gerasamba (futuro É o Tchan), que depois lançou a Dança do Bumbum, O trenzinho (da sacanagem), a Dança da cordinha, a Dança do põe, põe… Inesquecíveis – ou facilmente esquecíveis – também foram Na boquinha da Garrafa e a Dança do Strip-tease, da Companhia do Pagode e o Carrinho de mão, do Terra Samba. “Facilmente esquecíveis” porque tudo isso é música popular com prazo de validade. Sim, a música popular é feita para ser consumida no calor da hora. Felizmente nossa música é tão forte que muita coisa de excelente qualidade foi produzida e sobreviveu ao tempo. Mas muita coisa também é feita para durar apenas um verão. Como o Créu. Por isso não tenho medo dele. É uma musiquinha-piada que em pouco tempo ninguém mais vai se lembrar.
Tenho certeza que quem inspirou a Dança do Créu foi a adorável Marrom, Alcione, com aquele samba gaiato do “negão de tirar o chapéu”, que não podia dar mole, senão ele “créu”. E assim o “créu” – gíria comum nos anos 80 – voltou para abalar a libido de uns e o gênio dos mau humorados de plantão.
A lista de nossas músicas chulas, pueris e deliciosamente apelativas não acabou. Teríamos de incluir alguns clássicos da jovem guarda, forrós de Manhoso, Genival Lacerda, Clemilda e Teodoro & Sampaio, sambas de Dicró, o dance Heloísa mexe a cadeira (“e vai fazendo a minha mala”) do Vinny, os rocks dos Raimundos, que compuseram pérolas como “Se ela tá gemendo é porque eu sou um cara legal/ Se ela tá tremendo é porque gostou do meu pau/ Se ela ta gritando é que ela tá querendo mais/ Se ela tá berrando é hora de meter por trás”. Ninguém compara Raimundos com Chico, Caetano e a bossa nova. Já a pobre da Dança do Créu e seus colegas do (neo) funk carioca…
O que eu tenho medo mesmo é de boa parte da nova MPB e do pop nacional – são caretas, pouco inventivos, com muita gente pretensiosa e pouco talento. Muita imitação de gerações anteriores e muito pouco a dizer, inclusive como cidadãos, em entrevistas politicamente corretas até a medula. É desses caras que eu tenho medo. Muito medo! Mais medo do que Regina Duarte tinha do segundo mandato de Lula. Podem imaginar? Créu neles! E na velocidade “5”!

Rodrigo Faour