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Opinião de Faour

O que ainda não foi dito sobre os “50 anos da bossa nova”: ela terminou, como movimento, há 40 anos

(artigo de Rodrigo Faour publicado na Revista MPB Brasil, da rádio MPB FM, do RJ, em novembro de 2008)

A MPB por ser tão diversa e inesgotável está sempre presente no noticiário e neste ano de 2008 só deu ela. Até um peão de obra que só ouve música sertaneja deve saber que comemoramos 50 anos da bossa nova, porque este foi, sem dúvida, o assunto musical do ano em tudo quanto foi jornal, rádio, TV e até cinema, pois houve até filme – “Os desafinados” – sobre o filão. Muito justo que num país em que sempre há queixas sobre a sua terrível falta de memória que se tenha feito uma ode a um estilo tão renovador de nosso cancioneiro, e por tabela uma boa homenagem ao nosso Rio de Janeiro, cidade sempre maravilhosa e tão sabotada por nossos governantes… Agora que já foi tão homenageada, vamos botar alguns pingos nos “is”, antes que o novo acordo ortográfico entre os países de língua portuguesa também nos retire esse delicioso prazer de pingar os is. Senão vejamos…

Desde os anos 40, muitos artistas vinham fazendo uma música com toques de modernidade até chegar agosto de 1958 e a aclamada gravação de João Gilberto de “Chega de saudade”. Daí em diante, a bossa nova como “movimento” durou aproximadamente uns 10 anos. Houve intérpretes que exploraram o “banquinho e o violão” à exaustão, outros que exploraram mais a sonoridade jazzística – vide a enxurrada de trios instrumentais que se reproduziam como coelhos nos anos 60, Tamba, Jongo e Zimbo Trio à frente –; outros que quiseram dar uma resposta mais “social” às letras idealizadas de amor, mulher, sorriso e flor da primeira fase da bossa (Carlos Lyra, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo), e ainda outros que foram para os EUA (Sérgio Mendes, Luiz Bonfá, Astrud Gilberto, Walter Wanderley etc) e acabaram por fundir sua bossa a outros estilos e aí está o ponto onde quero chegar: a bossa nova como movimento terminou aos 10 anos de carreira. Tudo que houve em seguida foram desdobramentos e não um “movimento”.

A bossa nova se incorporou definitivamente ao nosso cancioneiro como mais uma maneira de tocar o velho e bom samba. E todos os nossos grandes artistas, cedo ou tarde, tiraram uma casquinha da bossa nova, como tiraram também do samba tradicional, do baião, do frevo, da modinha e da valsa, do rock, do soul e dos ritmos afro-caribenhos. Pode-se dizer ainda que há também uma “intenção bossa nova”, ou seja, algo de sofisticado e intimista no fazer música que influenciou artistas não só da MPB como do mundo inteiro. E Menescal ainda me disse numa entrevista que até mesmo os jazzistas se influenciaram pela bateria da bossa nova, que ficou mais manemolente depois do advento da bossa nova, e ele tem razão.

Exageros, mitificações e os supostos excluídos das comemorações
Ocorre que após o LP “Bênção, bossa nova”, de Leila Pinheiro, que Menescal produziu há 20 anos, comemorando os 30 anos da bossa nova, e do livro best-seller “Chega de saudade”, do meu querido Ruy Castro, a mesma bossa teve um ressurgimento na mídia e as pessoas voltaram a cultuar os clássicos do “movimento” e, pouco a pouco, artistas outrora vinculados ao mesmo mas que naquele momento estavam bem distantes da bossa tradicional voltaram a querer o seu quinhão. Seja gravando novos discos (ou velhos sucessos) dedicados ao gênero, seja falando do assunto (outrora “cafona”) na imprensa… E, finalmente, neste ano de 2008 o caldo entornou na escalação dos shows comemorativos que pipocaram pelo Brasil e pelo mundo em torno da BN. Um monte de gente se sentiu traído, esquecido ou menosprezado pelos organizadores dos mesmos.

Ora, isso uma besteira sem par. Porque todos os artistas, inclusive os escalados para os shows comemorativos, fizeram de tudo em suas carreiras – até bossa nova. Menescal largou a carreira de band-leader em 1970, quando foi ser diretor artístico da PolyGram. Lá fazia arranjos para vários artistas do cast, mas minimizou bastante sua obra até mesmo como compositor. Só voltaria a gravar mais regularmente vinte anos depois, quando abriu sua gravadora especializada em BN, a Albatroz. Carlos Lyra depois de voltar do exílio nos anos 70 fez de tudo um pouco, escreveu até canções de duplo sentido pra sua ex-mulher Kate Lyra, no melhor estilo dos forrozeiros e dos autores carnavalescos, mas o público queria sempre dele as velhas canções da peça “Pobre Menina Rica”, que escreveu com Vinicius de Moraes em 1964.

Grandes intérpretes como Pery Ribeiro e Leny Andrade, depois de álbuns radicais ligados à bossa nova, gravaram também de tudo. Leny chegou a fazer um disco de sambões nos anos 70 e um de pagodes de Altay Velloso mais recentemente, e Pery gravou até “Ave Maria no morro”, de seu pai Herivelto Martins, em dueto com Christian & Ralf, além de discos de sonoridade mais pop/romântica ou de MPB moderna. João Donato viveu uma pá de tempo fora do Brasil, fez discos de jazz/instrumental, ficou anos e anos no ostracismo e só mais recentemente voltou a gravar que nem um louco um disco atrás do outro e visto como “mito da bossa nova”. E todo mundo que gravava com ele já podia dizer também que gravou ou participou de um disco de BN.

O genial Marcos Valle então – que dos compositores bossanovistas vivos talvez tenha sido o que mais se renovou – fez de tudo mesmo: canção brega-romântica, “dance”, pop/rock, além de baiões estilizados e tudo o mais que você puder imaginar. Tudo com grande competência, mas bem longe de ser um bossa-novista radical. Foi inclusive por intermédio de convites de produtores e gravadoras estrangeiras que Marcos Valle e também Joyce voltaram a ser valorizados internacionalmente, gravando mais regularmente e com público cativo na Inglaterra – e no Japão, onde a bossa nova é muito mais vendida e cultuada que no Brasil. Falando em Joyce, esta começou uma carreira influenciada pela BN nos idos de 1967/68, mas seus primeiros discos são… MPB pura. Somente a partir de final dos anos 80 passou a dedicar alguns discos exclusivamente ao gênero, também suprindo justamente uma demanda do mercado internacional.

O falecido Tom Jobim depois da primeira fase bossa-novista, escreveu valsas, choros, canções ecológicas… tudo bem, o clima era sempre “bossa nova”, mas não era mais parte de um “movimento”. Vinicius de Moraes a partir de sua vitoriosa parceria com Toquinho na década de 70 fez sambas da melhor qualidade e canções de outros gêneros nem sempre vinculadas ao estilo “bossa nova”. Tinham inclusive percussão de samba tradicional.

Talvez o único artista mais radicalmente ligado à bossa nova desde sempre tenha sido mesmo João Gilberto, que – vamos e venhamos – quase nunca renova seu repertório, quase nunca faz shows e muita gente não gosta, mas tem vergonha de assumir, porque é politicamente incorreto. Eu confesso que curto, vira e mexe o toco no meu programa “Sexo MPB”, mas não partilho da opinião de que está cada vez melhor, que cada vez que canta “Chega de saudade” traz uma nova nuance à música. Isso já é viagem da “inteligentsia”. Queria ver se ele fizesse um show e um disco por ano tocando sempre as mesmas músicas se a crítica seria tão condescendente. “Porra, não sai disso!” – diriam. Mas, de dez em dez anos (ou mais), aí só se vê sua genialidade reforçada. Aliás, João é o “louco” mais inteligente do Brasil. Como se sabe, é louco, mas não rasga dinheiro. Muito pelo contrário. Com o cachê pago pelo Itaú e pelos japoneses por meia dúzia de shows dele, dava pra pagar uns 100 shows de bossa nova até 2050. É o tal caso, ele é gênio? Sim. Mas a MPB tem outros gênios do samba, do choro, da Era do Rádio, da canção de protesto, da canção romântica que nunca tiveram a metade do espaço que João tem. E tudo em nome de sua excentricidade. Este é, sem dúvida, o capítulo mais pungente dos exageros cometidos em prol do meio século da bossa.

Por conta desse oba-ôba dos 50 anos da BN, artistas como Maria Creuza, Miúcha, Claudette Soares, Alaíde Costa, Os Cariocas, o referido Pery Ribeiro e tantos outros reivindicaram seu quinhão nesta festa. De fato, não podem ser esquecidos. Mas, repito, o mais importante é pensar que eles podem ter sido alguns dos que mais gravaram o gênero e alguns até ajudaram mesmo a fundá-lo ou fixá-lo, mas hoje a bossa é deliciosamente promíscua. Ou Caetano, Chico, Gil, João Bosco, Ivan Lins, Roberto, Erasmo, MPB/4, Quarteto em Cy, Jorge Benjor, Gal Costa e até Rita Lee também não fazem bossa nova? E Jorge Vercillo, Maria Rita, Mart’nália, Marisa Monte?

Rita Lee já fez pelo menos dois discos com clima totalmente bossa nova – “Bossa’n’roll” e “Aqui, ali, em qualquer lugar” (tributo ao Beatles). E Caetano, Chico, Gil, Ivan Lins, João Bosco, Erasmo, Roberto, Benjor, entre tantos outros, já compuseram inúmeros sambas influenciados pela bossa – e até mesmo na interpretação de muitas de suas canções. Gal Costa imortalizou muitas bossas – e não necessariamente os clássicos do movimento, mas canções com clima de bossa. Marina nos anos 80 e 90 emplacou um hit atrás do outro com uma voz pequena, “bossa nova”. Marisa Monte insiste numa estética cool há anos totalmente BN. E Sade Adú? Também não deveria estar no famoso show da praia de Ipanema? Vamos celebrar os 50 anos da bossa nova, mas nada de “movimento”. O movimento – bem como seus principais clássicos – foram compostos até 1968. O resto é desdobramento, influência e está impregnado na sigla que atende desde 1965 pelo nome de MPB.

3 replies on “O que ainda não foi dito sobre os “50 anos da bossa nova”: ela terminou, como movimento, há 40 anos”

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